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“Eu tenho algo a dizer”: O Histórico negro do Brasil, Voz Ativa e a linguagem do RAP

Lucas Barbosa

Em 1992, no álbum Escolha Seu Caminho, o grupo Racionais Mc’s lançava a música Voz Ativa. Cheia de expressividade, denunciava principalmente os problemas mais emergentes da sociedade brasileira, especificamente em se tratando da questão racial. É um chamamento necessário aos pretos enquanto raça oprimida no Brasil, historicamente inserida na classe operária, convocando-os, assim, a serem uma voz ativa contra a opressão e a exploração do povo preto.

Mas, o que significa ser uma Voz Ativa? ou melhor, como o RAP no Brasil a expressa? Trouxe para a nossa discussão as reflexões do sociólogo Clóvis Moura para que entendamos o que é a tal Voz Ativa refletida historicamente e como ela afeta (positivamente) a linguagem negra nos dias de hoje.

Clóvis Moura: os negros escravizados no Brasil e a Voz Ativa

Clóvis Moura, grande sociólogo brasileiro, escritor principalmente das questões raciais no Brasil com sua concepção de realidade materialista, lança em 1994 seu magnum opus Dialética Radical do Brasil Negro, que vem a ser uma grande síntese de seu pensamento acerca da questão. Nessa obra, o autor dedica um tópico para refletir acerca da linguagem do povo negro e como ela foi afetada através do antagonismo de classes entre os senhores e o povo negro brasileiro ainda escravizado, denominando-o Linguagem, repressão e ansiedade do cativo (o desabafo do cativo).

Que é a linguagem? É, basicamente, a maneira pela qual nos comunicamos, seja por símbolos, sinais, linguagem verbal, escrita etc., para transmissão de valores e conhecimentos, dando atenção especial à própria transferência da “realidade empírica cotidiana” (Moura, 2020, p. 256). Nesse sentido, ela se coloca como um item necessário para a vida social, que precisa da interação para quaisquer atividades que são inerentes à manutenção da existência humana.

Clóvis Moura coloca, nesse sentido, que a sociedade, que é dividida em classes, vai ter vários tipos de configurações em uma mesma linguagem, ou seja, mesmo que o sistema morfológico seja o mesmo, as maneiras de expressão vão ser modificadas de acordo com a classe a qual o indivíduo pertence, seja através das gírias, das conotações simbólicas das palavras e da própria entonação da voz em sua leveza ou agressividade, enfim.

Essas diferenças vão ser incentivadas, nesse caso, não só pelo meio social em que o indivíduo está inserido, mas pela própria hierarquia que é imposta aos escravizados pelos senhores como forma de manifestação de poder. Segundo os termos ipsi literis de Clóvis Moura, aí está o germe de um embate:

Isto produz […] cargas de tensão e de conflito, pois o elemento inferiorizado social, econômica e culturalmente muitas vezes pensa uma coisa, mas por outro lado, sente-se bloqueado e tem de expressar-se de outra forma porque se o fizesse de maneira diferente (de acordo com seu pensamento) iria ferir, transgredir normas hierárquicas e violar padrões de comportamento estabelecidos (Moura, 2020, p. 257).

Nesse sentido, o escravizado sendo inferiorizado pela sociedade escravagista, precisa modelar toda a sua fala, entonação de voz e até uso de palavras-chave de acordo com quem está falando – senhor, senhora, filho ou filha dos senhores, etc. – correndo o risco de sofrer punição por não cumprir as normas estabelecidas pela classe dominante.

Portanto, impedido de expressar-se livremente de acordo com o que pensa e/ou quer externar, fica na posição passiva da relação, receptora, em que a parte ativa fica somente nas mãos do senhor. Funciona mais como um monólogo do que um di-álogo propriamente; para além disso, afeta psicologicamente os escravizados, que passam a sempre vigiar a si próprios em suas falas, gerando assim, de acordo com Moura, uma ansiedade permanente no diálogo: “Não era um diálogo coloquial, solto, mas estabelecido pelos padrões que regiam as formas de comportamento que garantissem a total submissão do escravo.” (Moura, 2020, pp. 258 e 259).

Considerando que a palavra “conversar” significa versar COM alguém, ou seja, em conjunto, não podemos nem empregar tal termo para essas relações que se estabelecem.

Como não gerar ansiedade? submetido à distância da espontaneidade inerente à linguagem; a regras estabelecidas com o intuito de atestar esta tal submissão perante o senhor através desta, com medo de transgredir a disciplina por simples erros de regras impostas pelos senhores! É mais fácil para eles, em muitos casos, apostar na violência física contra os seus repressores do que na própria violência verbal, através de xingamentos ou insultos, tamanha é a ansiedade que a coerção à livre expressão causa.

Demos atenção à questão da violência física contra seus senhores: a violência, refletida na coerção destes em relação ao seu livre falar, torna-se um meio de expressão, uma reação à violência que são impostos (é claro que não estamos nos referindo somente à questão da linguagem como motivação, mas tratamos aqui principalmente desta): ou seja, é expressada, através deste ato, a sua Voz Ativa.

A Voz Ativa funciona, assim, como uma reação à violência imposta aos povos oprimidos, aqui especificamente em se tratando do povo preto brasileiro; manifesta-se aqui a dialética presente na luta de classes, em que o movimento é uma constante na sociedade através do conflito entre os contrários, entendendo, frisamos, que a questão racial está inserida e é inerente às questões de classes.

Continuando, Clóvis Moura encerra este tópico fazendo uma observação:

quando o escravo não estava diretamente coagido, inibido ou reprimido pelo senhor, seus prepostos imediatos ou representantes do poder, a sua loquacidade era por demais significativa não apenas em nível coloquial individual, mas em nível de manifestação coletiva, através de várias atividades grupais onde o falar e o cantar tinham uma função catártica indiscutível. Podemos dizer mesmo que o negro escravo, ao se desinibir da camisa de força ritualística da linguagem imposta pelo senhor, a qual o obrigava a um código de linguagem passivo e apenas concordante, expandia-se em manifestações coletivas de libertação simbólica por meio da palavra e da música. Até hoje, isto é visível nos descendentes de escravos que compõem a população negra no Brasil. (Moura, 2020, p. 266)

Interpreto aqui o “até hoje” como algo que está em vias de extinguir ou que se vê com raridade. Notabilizando que essa obra foi redigida em 1994, essa expressividade ainda estava em seu germe. Dois anos antes, é lançada pelos Racionais Mc’s a minha, a sua, a nossa Voz Ativa.”

“A juventude negra agora tem a voz ativa”

Considerando as ideias de Clóvis Moura apresentadas, é fácil entender em que sentido o RAP se torna a Voz Ativa da música negra. Claro que temos em conta aqui que a luta racial existe, e portanto a Voz Ativa do povo negro se manifesta, desde que foram postas as contradições entre negros escravizados e senhores de terras no Brasil; portanto, são expressões da Voz Ativa do povo preto brasileiro emergentes à partir da violência em movimento organizado em resposta à violência anterior da classe dominante.

Também não tiramos de perspectiva que há, sim, luta racial organizada em várias esferas também no Brasil Republicano. No próprio Maranhão, os movimentos para o direito de digna existência dos quilombos existem desde que são descobertos pela intelectualidade negra do estado, em 1978, iniciando-se assim a formação de entidades como o Centro de Cultura Negra (CCN).

Mas, musicalmente falando, e mesmo que consideremos também que a música do Brasil é, em sua base, preta (mesmo que os brancos tenham tentado retirá-la desse alicerce, como Nelson Sargento exemplifica na letra do samba Agoniza mas não morre), no Brasil ainda não existia uma musicalidade negra tão crua, violenta e direta como o RAP, expressando assim a própria Voz Ativa em letra e musicalidade.

Por isso, afirmamos que essa expressão ainda estava em seu germe. Era ainda o início do RAP no Brasil.

A música Voz Ativa dos Racionais MC’s foi feita nos anos 1990: o Brown, um dos integrantes do grupo, afirma que escreveu a letra em um momento que era quase consenso entre os muitos intelectuais brasileiros a ideia de democracia racial; a música, por conseguinte, vem em movimento contrário. Inspirados em Malcolm X, ativista negro norte-americano, reafirmam todo o racismo que é uma realidade inegável na sociedade paulista, mesmo que isso não apareça na TV, como os próprios versos enfatizam.

Enquanto a televisão fabrica suas notícias, dando a entender que os problemas não existem, o movimento rap crescente, formado no interior das periferias, usa da linguagem musical para externar sua realidade empírica cotidiana: a violência policial, o racismo que é intrínseco a essa violência, o próprio status quo do Brasil que finge estar tudo bem e não quer ver os negros no topo.

É como afirma o cientista político Gabriel Gutierrez, escrevendo para o Nexo Jornal: o grupo, e especificamente, a música, fala a partir da colocação do problema e de sua solução.

A música inicia com a frase “Eu tenho algo a dizer”. Uma frase simples confessa muitos anos de direito à expressão de linguagem negados. “Eu tenho algo a dizer” como diz quem está muitos anos calado e agora se vê em condições de verbalizar suas questões. Mas logo essa verbalização se mostra direcionada a um público alvo específico: é claro que é uma denúncia à sociedade em geral, mas tem ciência de que a resolução do problema não é uma concessão, e sim uma luta, portanto, “Se você se considera um negro, pra negro será”.

Assim, o som logo progride à problemática: a discriminação racial se manifesta desde a burguesia da sociedade até os policiais militares que, servindo ao Estado burguês, servem aos próprios burgueses em sua perpetuação. E com essa mesma realidade, a letra continua lamentando que os pretos tenham que viver “naturalmente” nessas condições. É um lamento otimista: o grupo, coloca-se logo com disposição para manter a honra do povo negro viva.

Logo após o refrão, esse otimismo se demonstra, colocando os pingos nos is: “Precisamos de um líder de crédito popular como Malcolm X em outros tempos foi na América”. Nesse sentido, o grupo manifesta que o Brasil precisa de representação negra como impulsionadora do movimento para garantia de sua dignidade. Eles colocam várias problemáticas que os próprios passam no seu dia a dia, dando a entender que os pretos estão frequentemente sendo colocados uns contra os outros, sem norte, desorientados. Nesse sentido, esse movimento, essa liderança, seria o próprio RAP, já que eles próprios manifestam-se como tal.

O objetivo deste tópico não é necessariamente fazer uma análise minuciosa da música, mas colocar as duas perspectivas que ela mesma nos entrega: colocação do problema/solução. O RAP em seu germe é o mesmo RAP que, em sua progressão, vai virar a Voz Ativa em postura (palavra muito usada no movimento hip-hop atualmente) e em estética musical. O RAP se coloca como uma solução.

O RAP há 30 anos é um movimento ascendente entre a juventude negra das periferias: não por acaso.

Como Voz Ativa, a música alimenta tudo aquilo que foi retirado de sua descendência por essas relações de opressão que existiam nos tempos escravagistas do Brasil: a entonação da voz é violenta, as frases são diretas e provocativas; os próprios xingamentos que são tão censurados pela sociedade branca brasileira e foram igualmente censurados aos escravizados, é mais usual no RAP, já que até o insulto verbal foi retirado de nossos ancestrais. Sobre esta última, não se trata de uma apologia aos insultos, mas de entender os processos que estão interligados à normalização de seu uso.

Em entrevistas, o Brown já afirmou que no início os Racionais Mc’s andavam nas ruas como gangues, fazendo com que bairros que se odiavam passassem a se unir. Em 1997, lançam a música Fórmula Mágica da Paz, começando com a pergunta “por que que essa porra é um campo minado?” se referindo às periferias e terminando com uma afirmação, uma indagação e um convite: “A gente vive se matando, irmão. Por que? Não me olhe assim, eu sou igual a você! Descanse o seu gatilho, descanse o seu gatilho. Entre no trem da malandragem, meu RAP é o trilho.”

É fato, o RAP uniu as periferias do Brasil inteiro em um só movimento cultural. Não falo aqui que isso erradicaram de alguma forma a violência ou os problemas sociais que são intrínsecos às favelas, mas que criou uma rede de contatos que se comunicam por todo o Brasil em suas diversas periferias através do estilo musical vindo do gueto. A música continua falando de sua realidade imediata, mas se antes o grupo Racionais Mc’s falava somente de São Paulo, atualmente o Rapper Leall inicia seu álbum Esculpido a Machado falando das realidades da periferia de todo o Brasil, antes de falar do seu próprio bairro.

O que quero dizer? que o RAP é Voz Ativa dos negros em todo o Brasil. Consigo ouvir a música Voz Ativa e ouvir as mesmas coisas que vi na favela onde cresci, assim como ouço Pedro Bala de Leall e ver as coisas que ouço no meu bairro. Se, no ato de adquirir a Voz Ativa, os negros reagiam com violência física contra os senhores, o RAP atua como a simbolização desta violência em estética, instrumental, letras, entonação dos vocais, postura e vestimenta. É ouvir as músicas e se perguntar sobre como conhecem tanto sobre armas de fogo (embora Leall nos dê um palpite na música Portas Abertas, Caixão Fechado: “Homicídio me parece uma arte cultural/ uma espécie de ensino natural/ onde a criança aprende a olho nu/ a travar e destravar um Parafal”). O rapper negro Febem (que, mesmo que a origem do seu vulgo não seja por ter sido preso em alguma Febem, expõe muito bem a relação entre a juventude negra e o sistema carcerário), já dizia em sua música: “Não violência é bom, contanto que funcione”.

O RAP é um conceito: é a criatividade crua de uma galera que sobrevive numa realidade crua. O grupo Febre90’s, composto pelo rapper Pumapjl e pelo beatmaker SonoTWS nos ensinam: Malandro Demais Vira Bicho. Título de uma música lançada em 2021 pelo grupo que conta a trajetória de alguém que sobrevive no crime: a letra inteira parece enaltecer a vida do crime, mas o título já denuncia a questão principal da letra. Quão próxima é essa realidade das favelas? Resposta: a música foi feita em homenagem ao melhor amigo de Pumapjl, que infelizmente foi envolvido no crime e faleceu.

Dentro desse conceito tem uma experiência compartilhada para as outras favelas do Brasil. Sem querer enjoar o leitor de ouvir falar do Leall, mas para enfatizar a genialidade do álbum supracitado: a juventude negra como Voz Ativa transmite toda a realidade que está submetido o povo, especialmente negro, no Brasil: Na Barriga da Miséria dá dados das favelas de todo o Brasil em relação à linha de pobreza e controle do tráfico de drogas; Pedro Bala se fala da vida do crime (“dá meu brinquedo de escorrer sangue na escada”); Pedras Amarelas é analisado o que se observa em um caminho de trem na cidade do Rio de Janeiro em relação às pessoas que se entregaram ao crack (“Pedras amareloas/ na linha amarela vi dois corpos estirados/ fez desgraça no homem frustrado/ coleciona almas como as pedras douradas/ acho que virou epidemia.”).

Mas em Posso Mudar Meu Destino, final do álbum, ele também dá esperanças ao povo negro: “Eu posso mudar meu destino/ Não seja cego, jovem negro/ Não sinta medo, jovem negro/ Sem desespero, jovem negro/ Você pode escolher seu caminho.”

E é isso que o RAP nos dá enquanto Voz Ativa para o povo negro: a exposição da problemática e a solução.

REFERÊNCIAS:

Músicas (em ordem de citação):

RACIONAIS MC’S. Voz Ativa. São Paulo: Zimbabwe, 1992.

RACIONAIS MC’S. Fórmula Mágica da paz. São Paulo: Cosa Nostra, 1997.

LEALL. Pedro Bala. Rio de Janeiro: Covil da Bruxa, 2021.

LEALL. Portas Abertas, Caixão Fechado. Rio de Janeiro: Covil da Bruxa, 2021.

FEBEM. Jovem OG. São Paulo: Ceia Ent./Empire, 2021.

FEBRE90’S. Malandro Demais Vira Bicho. Rio de Janeiro: Tired of People, 2021.

LEALL. Na Barriga da Miséria. Rio de Janeiro: Covil da Bruxa, 2021.

LEALL. Pedras Amarelas. Rio de Janeiro: Covil da Bruxa, 2021.

LEALL. Posso Mudar Meu Destino. Rio de Janeiro: Covil da Bruxa, 2021.

Bibliografia:

ERNANI, Felipe. Prêmio Nacional RAP TV anuncia vencedores da edição 2021. Tenho mais discos que amigos. 07 dez 2021. Nacionais. Disponível em: https://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2021/12/07/premio-rap-tv-2021-vencedores/

MEDEIROS, João Victor. O Boom Bap proibidão do Febre90’s. Monkeybuzz. 27 out 2021. Entrevista. Disponível em: https://monkeybuzz.com.br/materias/o-boom-bap-proibidao-do-febre-90s/

MOURA, Clóvis. Dialética Radical do Brasil Negro. 3 ed. São Paulo: Anita Garibaldi, 2020.

REDAÇÃO. Dexter lança releitura e videoclipe da música ‘Voz Ativa’, dos Racionais MC’s. Alma Preta. 17 ago 2020. Cultura. Disponível em: https://almapreta.com/sessao/cultura/dexter-lanca-releitura-e-videoclipe-da-musica-voz-ativa-dos-racionais-mc-s

ROCHA, Camilo. A influência dos Racionais MCs no ativismo de periferia. Nexo, 25 ago 2020. Cultura. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/08/25/A-influ%C3%AAncia-dos-Racionais-MCs-no-ativismo-da-periferia

Sobre o autor

Lucas Barbosa

Graduando em História pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), foi criado no complexo Sacavém, hoje faz estágio no Museu Histórico e Artístico do Maranhão e escreve sobre cultura e questão racial.

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