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Os usos do 7 de setembro

Por Marcelo Cheche Galves[1]
06/09/21

Foto: Alfredo Rizzutti/Estadão

Em 1972, a ditadura civil-militar valeu-se do aniversário de cento e cinquenta anos da Independência do Brasil para construir um calendário contínuo de comemorações, de abril a setembro daquele ano. Tratava-se de grande oportunidade para conciliar o apelo da efeméride à propaganda política, assentada no chamado Milagre Brasileiro, que pavimentaria a etapa final do caminho para a verdadeira Independência…

Antes e depois de 1972, e por razões óbvias, a data sempre se caracterizou pelo potencial de evocação das memórias mais variadas, acomodadas ao presente de acordo com as agendas e interesses do momento.  Para este ano, o 7 de setembro parece servir à uma estranha ideia de Independência, tomada como sinônimo de liberdade para destruir as instituições que garantem, bem ou mal, liberdades conquistadas a duras penas. Sem desfiles militares de monta, a anunciada ocupação das ruas em apoio a intervenções autoritárias conta com declarado apoio presidencial, em modelo singular de manifestações contra o Estado, apoiadas pelo próprio governo, que se vale da data como termômetro de medição da viabilidade de suas pretensões golpistas.

A movimentação assistida também serve como ensaio para o próximo ano, momento em que o bicentenário da Independência será lembrado em pleno ambiente de campanha para as eleições presidenciais. Cinquenta anos depois, a condução da efeméride caberá novamente a um presidente da república vinculado às Forças Armadas. Sem fantasias desenvolvimentistas a serem saudadas, e em cenário de profunda crise econômica, política e institucional, a data fornecerá munição (sem trocadilhos) para a defesa de quais liberdades?

Parte da resposta a esta indagação já aparece no horizonte. Dentre as liberdades propagadas,  uma das preferidas é a de fustigar as instituições, apresentadas como “traidoras da pátria”; neste mesmo movimento, o resultado das eleições deverá ser respeitado, apenas se os “verdadeiros patriotas” saírem vitoriosos.

Ontem e hoje, certo apelo à pátria ainda funciona como o canto da sereia. Para se sentir atraído, é preciso crer em moralismos rasteiros, fundamentados na naturalização e aprofundamento da desigualdade social, e na presença de inimigos a serem permanentemente combatidos, ainda que à custa das instituições. Polissêmica, a ideia de pátria também comporta noções como justiça e igualdade, estranhas aos tempos em que vivemos.

[1] Professor do Departamento de História da Universidade Estadual do Maranhão.
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