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Silvia Federici: “O capitalismo olha para a mulher como uma fábrica de trabalhadores”

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Foto: Giovana Kury/Agência Tambor

Via: Giovana Kury/Agência Tambor

 

“O capitalismo e a emancipação feminina são incompatíveis”. Em sua breve passagem por solo maranhense, a historiadora feminista italo-estadunidense Silvia Federici fez questão de abrir as cortinas da sociedade e expor o âmago da relação entre o sistema econômico capitalista e sua necessidade de controlar o corpo feminino – crítica que tece ao longo de suas décadas de trabalho.

A programação de Silvia em São Luís contou com uma aula magna gratuita com o tema ‘A caça às bruxas e a acumulação capitalista na Modernidade’, que lotou; e o lançamento de seu livro, ‘O ponto zero da revolução’, acompanhado de debate, que acontecerá no Solar Cultural da Terra, Centro de São Luís, às 18h30 desta sexta-feira (11). Mesmo assim, tanto na coletiva de imprensa da última quinta (10) quanto na entrevista que à Rádio Tambor desta sexta, Federici não poupou conhecimento. As teorias descritas a seguir foram coletadas destas das duas últimas ocasiões citadas. 

 

O capitalismo e a emancipação feminina

Sim, são incompatíveis”, Silvia reafirma. “O capitalismo é um sistema que se funda sobre a exploração dos seres humanos. Usa o trabalho, sua energia e capacidade para acumulação de riqueza que beneficia sempre menos pessoas. Então, as mulheres, que reproduzem os trabalhadores – a partir de seu corpo, da procriação – são exploradas ainda mais. Somos um elemento fundamental para o mercado. Isso ainda se junta com o trabalho doméstico. Por isso, acontece uma exploração particularmente intensa com as mulheres”.

A historiadora prossegue: “apesar de os homens também serem explorados no capitalismo, o caráter exploratório da mulher é muito mais invadente. Não se explora somente o trabalho da produção da mercadoria, mas do seu corpo, com a procriação e a sexualidade. Sexo para a mulher é parte do trabalho doméstico”.

Segundo Federici, por a mulher ter em seu ventre a capacidade de reprodução, a macropolítica sempre tentou ter controle sobre seus corpos. “É visto como uma riqueza social. O capitalismo faz do trabalho humano a fonte principal da riqueza. Não é tanto a terra, mas sobretudo a exploração do trabalho humano. Ele se preocupa com quantas pessoas nascem e morrem, o que faz da procriação um fator econômico. Que faz do ‘parir’ o momento de produção de força de trabalho. O capitalismo olha para o corpo da mulher como uma fábrica de trabalhadores”.

 

O aborto

A reivindicação das mulheres pelo aborto contrasta com a ideia capitalista da procriação desenfreada em busca de mais trabalhadores – por isso, até hoje, o direito de interromper a gravidez tem sido cerceado por legislações. Para Silvia, a religião, moral e valores bíblicos apenas camuflam interesses mais profundos para a manutenção do sistema político.

Além disso, a luta pelo direito do aborto vem em conjunto com outra tão importante quanto: o da maternidade. “Querem também decidir quem pode se reproduzir e quem não pode. Todas as vezes que o capitalismo se encontrou com populações de mulheres que poderiam produzir ‘rebeldes’, usaram a esterilização e lhe proibiram de ser mães, como durante a escravidão. Foi negado, às escravas, o direito de ser mãe; ou elas foram obrigadas a procriar para criar escravos”, pontuou. “Há um interesse específico econômico, não somente moral e religioso como parece. Querem que as mulheres procriem, mas não todas as mulheres, e não em quaisquer condições”.

“A luta pelo aborto é constitucional. É importante lutar pelo direito de nós decidirmos se vamos ter filhos ou não. E, todavia, é importante nunca separar isso pela luta do direito de ser mãe. Porque, particularmente neste continente, esse direito nunca foi dado, principalmente às mulheres negras”, concluiu a historiadora.

 

As leis não são suficientes

Para a Federici, a violência para as mulheres não é apenas causada pelo gênero masculino. “Leis econômicas que empobrecem as pessoas, que provocam desemprego, que matam de fome. Isso também é violência. O movimento feminista deve lutar contra tudo isso”, afirma. 

Abolicionista, o punitivismo é um dos pontos que Silvia critica de uma ala do feminismo. O ‘feminismo carcerário’ surgira nos anos 70 nos Estados Unidos, quando mulheres começaram a pedir por penas mais severas; mas não se levou em conta que quem acabaria sofrendo mais com aquilo seria a população já marginalizada – a negra. Este mesmo punitivismo levou à prisão a militante Angela Davis, como exemplificou a historiadora. “Se você contribui com a polícia, você está do mesmo lado de quem controla o corpo das mulheres”.

Questionada sobre a importância do legado da Marielle Franco, Federici, que já entrara na Rádio Tambor com um broche da ex-vereadora pregado em sua blusa, reiterou: “Marielle está aqui como todas estamos. A solidariedade não só com os vivos – mas também com os mortos – deve estar presente na nossa luta a todo momento, por toda a vida”.

 

Ponto zero

O livro lançado nesta sexta conta o percurso feminista de Silvia – não individual, mas em elaboração com muitas outras mulheres – de 40 anos por países da Europa, África e nos Estados Unidos. 

‘O ponto zero da revolução’ se divide em partes e discorre sobre temas como os citados nesta matéria: a história do controle sobre o corpo feminino, a luta pelo aborto e pela maternidade, a interseccionalidade, o controle reprodutivo e as relações econômicas envolvidas.

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