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Entrevista Cricielle Muniz: “Nossa sociedade não quer só asfalto”

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Por Giovana Kury
Para Agência Tambor
23/03/2020

As eleições para a prefeitura de São Luís estão chegando e, com ela, os pré-candidatos começam a se apresentar. De todas as possibilidades, um estereótipo se destaca: a maioria esmagadora é formada por homens brancos. Em meio a isso tudo, há Cricielle Muniz: uma mulher negra que disputa internamente com mais quatro homens a possibilidade de ser a candidata pelo PT. Com ela, a corrida para a prefeitura teria duas opções de votos femininos.

Nascida no bairro da Ilhinha de São Luís, Cricielle é filha de empregada doméstica e pedreiro. Por ser fruto das políticas públicas do PT, se filiou ao partido com 16 anos e, aos 18, começou sua carreira política. Hoje, tem como suas bandeiras principais a luta por uma política de fato representativa, por uma educação acessível, pelos direitos das mulheres e pela inclusão das minorias na sociedade ludovicense.

Quero que você comece falando da sua trajetória. Como se deu seu envolvimento com a política e com os movimentos sociais?

Comecei no movimento secundarista. Sempre fui aquela pessoa bem incomodada com determinadas questões dentro da escola, inclinada a lutar por uma educação de qualidade, tendo em vista que eu vim de uma área muito vulnerável, a Ilhinha. Minha mãe é empregada doméstica e meu pai pedreiro, e eles sempre lutaram para dar uma vida mais digna pra todos nós, mesmo diante do local que eu moro, com ausência de políticas públicas. (…) Sou fruto das políticas pensadas pelo PT. Fui beneficiada pelo Bolsa Família, o Fome Zero, o Bolsa Atleta. Me filiei ao PT aos 16 anos de idade. Em 2010 [com 18 anos] fui chamada pra ser chefe de gabinete da Secretaria de Desenvolvimento Social [do Governo do Maranhão]. Logo depois, em 2012, fui chefe de gabinete da Secretaria Institucional da Casa Civil. Também fui Conselheira Municipal da Juventude e coordenadora dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, que são as metas da ONU. Hoje, estou como coordenadora do Serviço Travessia, que é uma política de acessibilidade do Governo do Estado que atende pessoas que fazem o uso de cadeira de rodas, com deficiência visual, crianças com microcefalia e pessoas com doenças neurológicas.

Você é pré-candidata pelo PT, mas também há outros nomes cotados para a candidatura do partido – deputado federal Zé Carlos, o deputado estadual Zé Inácio, o vereador Honorato Fernandes e o presidente da MOB (Agência Estadual de Mobilidade Urbana e Serviços Públicos) Lawrence Melo. Como você se vê nessa disputa interna?

O estudo “A Democracia de Quem?” diz que 86% dos congressistas são homens, 76% são homens brancos. Trazendo para o cenário de São Luís, de 31 vereadores, três são mulheres. (…) Nós temos diversos candidatos que são do mesmo perfil: famílias privilegiadas, homens brancos. Por que que a gente vai ficar o tempo todo nesses espaços de sub representatividade? A gente precisa dizer que as mulheres negras vieram para conquistar e polarizar também. Com toda a mobilização de meus amigos e companheiros do partido, a gente coloca meu nome à disposição para apresentar uma agenda que realmente seja de desenvolvimento da nossa cidade, diante do abismo social em que a gente vive.

Então a sua motivação maior é a questão da representatividade

Das mulheres, principalmente das mulheres negras. A população do Maranhão é maioria negra, então a gente precisa fazer essa disputa, não só ficar nesses espaços sub-representados. Dentro desses espaços, ficam os negros, LGBTQI+, os indígenas e quilombolas. A gente precisa também motivar para que esses segmentos também venham fazer essa disputa, para que a gente venha lutar por uma sociedade mais plural e representativa.

Como você vê o campo progressista da política maranhense?

A gente compreende que o PT tem seu projeto político, e os outros partidos progressistas também têm um projeto paralelo. O que é preciso compreender é que a gente tem que fazer a disputa real da sociedade e fazer uma mudança de narrativa. Ter o domínio da narrativa política. Valorizar os companheiros que se colocam para fazer essa disputa, mas acredito que isso poderia se somar mais aqui, fazendo uma frente ampla de esquerda diante do cenário nacional. Nosso projeto tem tempo de validade. O Bolsonaro tem apresentado uma agenda agressiva contra a classe trabalhadora e a gente precisa estar unificado para enfrentar. Mas compreendendo que cada político da base progressista tem um projeto político paralelo que, mais para frente podemos nos somar e fortalecer ainda mais nosso estado e nossa cidade.

Como você avalia os oito anos de gestão do prefeito Edivaldo Holanda?

O PT fez parte da gestão do Edivaldo. No primeiro mandato, tivemos dificuldades. Hoje, acho que o cenário mudou um pouco mais, mas aqui adota-se muito a política do asfalto. Nossa sociedade não quer só asfalto, e sim uma vida mais digna, trazendo educação, saúde. Faço uma avaliação de que no primeiro mandato não foi como o esperado, mas no segundo momento deu para avançar um pouco.

Caso você seja eleita, quais seriam as medidas prioritárias para você tratar no início do mandato?

O grande desafio da nossa cidade é discutir o Plano Diretor. Reduzir 41% da nossa zona rural é muito delicado. É um impacto grande não só na mobilidade e na segurança, mas também na questão cultural daquela localidade. Houve uma ausência de participação popular. O Plano Diretor encaminhado pelo poder executivo foi baseado em um estudo de 2009. Como eu vou fazer uma análise de um Plano que foi baseado em um estudo de 10 anos atrás? É preciso avaliar o contexto local de hoje para dialogarmos [o plano] com a sociedade. Nós não temos disciplina na questão ocupacional da cidade, principalmente na regularização fundiária. O Plano Diretor é uma pauta importante para se discutir a cidade como prioritária. Outra questão é a das creches comunitárias. As mulheres, hoje, em sua maioria, são chefes de família. Elas não têm com quem deixar seus filhos, e na maioria da nossa cidade não tem onde colocar. Essa mãe vai deixar a criança com quem? É algo que precisamos tratar como prioridade também. A educação popular também, levando cursinhos comunitários para a comunidade para que os jovens da periferia tenham acesso ao ensino superior.

Durante a gestão de Edivaldo Holanda, aconteceram muitos aumentos de passagem do transporte público – mas, ao mesmo tempo, quase nenhuma melhora. Quais pautas você considera prioritárias para a mobilidade urbana de São Luís?

Nos últimos cinco anos, sofremos muitas perdas na qualidade no transporte público. Não adianta só aumentar a passagem e não oferecer retorno. Precisamos também conscientizar a sociedade com diversas campanhas, como contra o assédio. Tem também a questão da gratuidade: temos um número gigantesco de pessoas recebendo a gratuidade mas precisamos saber se elas estão realmente dentro do eixo para recebê-la. Mas precisamos lutar por um transporte adequado, de qualidade e acessível porque pessoas com deficiência também têm o direito de ir e vir. Hoje, tiraram os cobradores. Quem dava assistência ao cadeirante era ele. Hoje, o motorista acaba acumulando diversas funções. O sistema do bilhete único também tem que ser melhorado. (…) Uma pauta que vem de muito tempo é lutar pela gratuidade dos estudante. É algo que temos que dialogar e trazer como prioridade. Muitos alunos têm uma grande evasão escolar por não ter o dinheiro de passagem para ir para a escola. Isso precisa ser dialogado. Se tiver viabilidade de fazer revogação dentro do contexto hoje, acho que seria a melhor saída para a sociedade.

Para finalizar, uma mensagem sua para a população de São Luís.

Primeiro, temos que motivar as mulheres, os negros e as minorias da cidade a fazerem a disputa por esse espaço de poder. Isso é super importante: a gente se sentir representado. Lutar por uma sociedade mais acessível, inclusiva e sustentável serão nossos grandes desafios. E, por fim, convidar para acompanhar nossas redes para que juntos possamos construir uma cidade que nós queremos, onde a gente se sinta participante.

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